Este é um texto provocativo, necessário e muito atual. Uma análise crítica excelente sobre o “isolamento cristão” moderno.
Se você começou a ler este texto, sugiro que vá até o final!
Quem nunca ouviu falar do personagem bíblico que construiu um barco gigantesco, colocou nele um casal de cada animal e apenas a sua família? Na minha infância, lembro-me bem das ilustrações que representavam essa história: pessoas cometendo pecados, Deus separando Noé, a construção da arca, a chuva torrencial e as pessoas zombando dele por não acreditarem no dilúvio.
Confesso que, quando criança, eu ficava triste pensando: “Por que Deus não salvou aquele povo? Será que em toda a Terra só havia um homem bom?”. Imaginava Noé e sua família convivendo por tanto tempo com todos aqueles animais — 40 dias e 40 noites! Quando o arco-íris finalmente aparecia, o sentimento era de alívio: “Ufa! Todos saíram da arca para recomeçar”. Afinal, não deve ter sido fácil aquela convivência.
A chuva parou, a porta se abriu e eles recomeçaram. Mas, com o recomeço, vieram também as velhas mazelas: pecado, mentira, inveja e morte. Assim vivemos hoje. Claro, entendendo que estamos sob a Nova Aliança que Cristo fez, entregando a Si mesmo para que todo aquele que O receber seja salvo. Mas vamos ao tema proposto: A Síndrome da Arca de Noé.
O que é uma Síndrome?
Para clarear onde quero chegar, vejamos a definição: Síndrome (do grego syndromé, “reunião”) é um termo utilizado na Medicina e Psicologia para caracterizar um conjunto de sinais e sintomas que definem uma patologia ou condição. No sentido figurado, designa características que, associadas a situações críticas, geram insegurança ou medo.
Você pode estar se perguntando: “O que isso tem a ver com a Arca de Noé?”. Aguente mais um pouco e você entenderá.
Em Gênesis 6:13, o Senhor revela a Noé que destruiria a humanidade. A declaração “tudo o que há na terra perecerá” deve ter sido perturbadora. Como Criador, Deus tem o direito sobre Sua criação. No entanto, houve esperança: Deus estabeleceu uma aliança com Noé e sua casa (Gn 6:18). Deus não se compraz na destruição; Ele agiu porque a terra não cumpria mais o propósito de declarar Sua glória e santidade (Rm 1:20; Sl 19:1).
Junto com Noé, salvaram-se sua esposa, seus três filhos e suas noras. Podemos argumentar que as bênçãos de Noé se estenderam à sua casa, ou que sua conduta influenciou tanto seus familiares que todos se qualificaram para entrar na arca. Isso nos lembra da importância do líder da família, cuja caminhada com Deus pode resultar em um transbordamento de bênçãos para os seus.
O objetivo do dilúvio não era aniquilar a criação, mas preservá-la, eliminando o “baluarte do pecado”. Deus poupou remanescentes para que a vida continuasse. Uma geração foi eliminada para que uma nova pudesse começar.
O Ponto Central: A Síndrome Atual
Chegamos ao ponto. Na era atual, o modelo de salvação que muitos adotaram é focado na família. Mas espere… na “MINHA” família.
Livros, sites e revistas dão orientações constantes sobre como ter uma vida saudável com a “nossa família”, do cuidado físico ao espiritual. Incrível como esse modelo invadiu nossas igrejas. Hoje, o que vemos são famílias querendo “salvar a si mesmas”. Fecharam-se em copas. Não se envolvem com a comunidade local, evitam congregar porque “preferem o culto doméstico”, não participam de retiros porque “é melhor viajar só com a minha família”. Não evangelizam o vizinho porque acreditam que apenas os seus precisam de cuidado.
O discurso é sempre o mesmo: “Minha família precisa ser protegida, minha família tem que ser cuidada…”. Desculpe, mas eu não acredito nesse modelo de isolamento.
Ao falar sobre a Síndrome da Arca de Noé, quero propor uma reflexão: estamos nos tornando paranoicos com a ideia de proteção contra o pecado do mundo e, por isso, construímos fortalezas ao nosso redor. Estamos construindo “arcas” exclusivas para nós e para os nossos. Não estou dizendo que devemos negligenciar a família — jamais! Estou questionando esse modelo de exclusividade familiar, onde agimos como se fôssemos os únicos sobreviventes e nunca mais precisássemos sair de dentro da arca.
A Porta Precisa se Abrir
Não temos o relato do que aconteceu dentro da arca. Imagino que conversaram muito, trabalharam cuidando dos animais e cresceram juntos. Como não tinham Wi-Fi (risos), sobrou tempo para o diálogo e para a perseverança. Momentos assim são fundamentais para fortalecer a família em tempos de provação.
Entretanto, o fato crucial é: após o dilúvio, a porta se abriu. Noé e sua família saíram. Saíram para recomeçar uma história com outras pessoas. Se Deus quisesse salvar apenas aquela família e encerrar o plano ali, Ele o teria feito. Mas as portas se abriram, a vida seguiu e a humanidade se expandiu.
Precisamos abandonar a mentalidade de que somos “exclusivos” e perceber que existem multidões lá fora que precisam conhecer a salvação em Jesus. Lembremo-nos das palavras duras de Jesus em Lucas 14:26: “Se alguém deseja seguir-me e ama a seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos […] mais do que a mim, não pode ser meu discípulo”.
A escolha é sua: você pode decidir ficar preso na “arca”, navegando em círculos com sua família, ou permitir que a porta se abra para que sua história em Cristo transborde na vida de outros.
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Ivana é formada em Teologia pelo Seminário MTC Brasil e Letras Português Inglês pela UNIFRAN, missionária, professora de inglês e mãe de Anna Keren e Lucas Benjamin.

